Alunos do IF baiano campus Catu criam produto de cicatrização para diabéticos

Infecções ou problemas na circulação dos membros inferiores são comuns em pessoas com diabetes não controlada. Aliado à falta de sensibilidade nas extremidades do corpo, esse quadro propicia o surgimento de feridas de difícil cicatrização que, quando não tratadas, podem resultar em amputação. No Brasil — que é o país da América Latina com maior número de diabéticos (16,8 milhões), segundo a Federação Internacional de Diabetes — a doença é uma das principais responsáveis pela amputação não traumática de pernas e pés.

Esse foi o caso de Maria Eunice, avó de João Pedro de Oliveira. Por mais de dez anos, ela conviveu com lesões cutâneas não cicatrizadas que ficaram expostas e levaram à amputação de parte do pé, causando problemas de locomoção e autoestima. Acompanhar as dificuldades da avó foi a inspiração para que, junto de Ítila Maykely Conceição, João Pedro desenvolvesse um produto para auxiliar a cicatrização de feridas de pessoas com diabetes.

Além da experiência familiar, a observação de hábitos locais contribuiu para a ideia. Natural de Crisópolis, na Bahia, onde os moradores tomam o látex da árvore mangabeira diluído em água para tratar úlceras de estômago, o estudante notou um processo interessante. Para que a substância fosse extraída da planta, era necessário fazer cortes que se fecham como uma espécie de cicatrização. A partir disso, João Pedro questionou: e se o látex fosse utilizado na pele?

Assim nasceu o CicatriBIO, com três formulações: biomembrana (curativo), creme e gel. Em todas elas, o principal componente do produto é o látex do pé da mangaba — também conhecido como leite da mangabeira —, que ajuda na cicatrização por meio da angiogênese. “É um tipo de processo que estimula a formação de vasos sanguíneos”, explica João, em entrevista a GALILEU. “Como o diabético tem uma deficiência circulatória, a nossa hipótese é de que esses produtos, ao entrarem em contato com o ferimento, vão proporcionar uma maior oferta de sangue e, consequentemente, de nutrientes, o que é essencial para a cicatrização.”

Passo a passo

João Pedro, de 19 anos, e Ítila, de 20, são alunos do ensino médio técnico em Química do Instituto Federal Baiano de Catu e tiveram a orientação do professor Saulo Luís Capim. Os estudantes contam que o primeiro passo da jornada foi entender em que terreno eles estavam “pisando”, ou seja, realizar pesquisas bibliográficas sobre o látex da mangabeira e a cicatrização de diabéticos.

Em seguida, eles partiram para a coleta do material. Nessa etapa, a equipe enfrentou algumas dificuldades em decorrência da polimerização do látex, que se transformava em borracha rapidamente. Para evitar que isso acontecesse, desenvolveram um método de estabilização do látex e passaram a fazer a coleta com o auxílio da água.

No laboratório, o material foi submetido a um processo de purificação. “É a filtração simples para tirar alguns resquícios que acabam entrando na amostra, já que a coleta era feita ao ar livre”, diz João Pedro. “Se necessário, fazíamos o processo de centrifugação para retirar o que não é visível a olho nu.”

Depois, entrou em produção o primeiro formato idealizado: o curativo. Para desenvolver as biomembranas, o látex foi incorporado a outras substâncias, como água e componentes plastificantes. A mistura era aquecida e depositada em placas de Petri e, em alguns dias, ocorria a polimerização (nesse momento, bem-vinda) e a formação do biofilme.

Inicialmente, as membranas não ficaram muito boas. “Mas pesquisa é isso mesmo, a gente vai tentando, mudando e melhorando”, comenta Ítila — e valeu a pena insistir. O resultado foi animador e a equipe conseguiu obter estruturas lisas e homogêneas, ideais para serem colocadas sobre a pele. No caso do creme e do gel, a produção consistiu em incorporar bases desenvolvidas a concentrações específicas de látex para cada fármaco.

Também foram realizadas as caracterizações físico-químicas, por meio das quais os pesquisadores avaliaram detalhes importantes, como a estabilidade. “A gente viu que até 200 ºC a biomembrana permanece estável”, relata Ítila. “No caso de uma pessoa com uma febre de até 40 ºC, por exemplo, utilizar o produto não ocasionaria nenhum dano.”

Do laboratório para a farmácia

Os bons resultados possibilitaram análises de caráter biológico na Universidade Estadual De Santa Cruz (UESC), em Ilhéus (BA), onde a coorientadora do projeto, Jane Lima dos Santos, leciona. O primeiro estudo in vitro foi o de viabilidade celular, para identificar se a substância seria tóxica para as células. “Nós utilizamos macrófagos de camundongos e observamos que a substância não propiciou mortalidade celular”, diz João Pedro. Uma vez comprovada a viabilidade de 100% do CicatriBIO, o sinal ficou verde para os testes in vivo, que devem ocorrer ainda no primeiro semestre de 2021 na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A segunda análise realizada foi a microbiológica. Cultivando vários tipos de bactérias que são encontradas em ferimentos, foi possível identificar que o látex consegue impedir a proliferação de Pseudomonas aeruginosa. “Em lesões cutâneas de diabéticos, há um processo de infecções por bactérias, que dificulta a cicatrização e agrava as lesões”, afirma João Pedro. “Então, esse foi um resultado muito bom, porque indica que a nossa substância é bacteriostática.”

Outro ponto fundamental para a pesquisa diz respeito ao preço. “Nós tínhamos a ideia de que os produtos deveriam ser acessíveis para grande parte dos consumidores, visto que muitas pessoas não têm um grande poder aquisitivo e acabam dependendo exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS)”, esclarece João Pedro. De acordo com as estimativas, o curativo ficaria em torno de R$ 1, enquanto o creme e o gel custariam cerca de R$ 7.

Para além dos três produtos, os pesquisadores também estão desenvolvendo um aplicativo que poderá aprimorar o tratamento dos machucados, aproximando médico e paciente para um melhor acompanhamento. O financiamento do software será viabilizado por meio do edital Empreendedor Inovador, do Ministério da Educação (MEC), que também destinará parte dos R$ 200 mil para os testes in vivo.

Apesar dos estudos terem como público-alvo os diabéticos, Ítila e João Pedro não descartam a possibilidade de ampliar o alcance do produto. Isso porque, se o CicatriBIO viabilizar a cicatrização em indivíduos que têm dificuldade nesse processo, em pessoas não diabéticas os fármacos poderiam cicatrizar feridas mais rapidamente. “É uma ideia para um futuro não tão distante”, comenta João Pedro.

Os próximos passos exigem paciência. Se os testes em camundongos apresentarem resultados positivos, mais experimentos serão realizados para que o produto se encaixe nos critérios de registro de medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e para que sejam conduzidos testes clínicos em humanos. A equipe também aguarda a resposta do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) quanto ao pedido de registro de patente do CicatriBIO.

A ciência no futuro

Diante dessa longa trajetória, João Pedro acredita ter se tornado uma pessoa completamente diferente. Por ter nascido em uma cidade pequena do interior da Bahia e sempre ter estudado em escolas públicas, a pesquisa era, em suas palavras, algo fora de cogitação. “O máximo que eu tinha de ciência era a partir da televisão e era muito distante”, conta.

Ele lembra que, ao ver a propaganda da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), ficava curioso e sentia vontade de fazer parte desse mundo. “Mas eu falava para mim que eu não era inteligente o suficiente”, diz. “Anos depois, em 2020, a nossa pesquisa foi aprovada em primeiro lugar na Febrace”, comemora. Além disso, o projeto foi um dos finalistas da Regeneron Internacional Science and Engineering Fair, feira científica pré-universitária dos Estados Unidos.

Agora, João Pedro pretende seguir o caminho da pesquisa. “Dentro da escola, a gente está inserido na dinâmica de reproduzir conhecimento, então foi incrível saber que eu posso produzir conhecimento”, constata. Graças ao CicatriBIO e por influência da pandemia, o jovem diz que tem vontade de trabalhar na área de saúde pública e, apesar de não saber ao certo qual curso de graduação, pensa em estudar em São Paulo ou em alguma universidade fora do país.

Ítila, mesmo sendo curiosa desde pequena, nunca tinha considerado ser cientista, e, por isso, participar do projeto foi um divisor de águas. “Estar dentro da pesquisa é totalmente diferente”, afirma. “Você vê que também é capaz e pode, como estudante do ensino médio, melhorar a vida de alguém.”

Se, quando entrou no Instituto Federal Baiano, Ítila não sabia nada sobre essa vertente acadêmica, hoje as coisas mudaram bastante. Ela pretende cursar odontologia na Universidade Federal da Bahia, mas já avisa que, como muitos vestibulandos, ainda não está totalmente decidida. Uma coisa, porém, é certa: independentemente de onde estiver, ela será cientista.

Fonte: Revista Galileu