Não havia nenhuma função religiosa acontecendo no Ilê Asé Oyá L’adê Inan. Na noite desta segunda-feira (27), apenas a ialorixá do terreiro, Roselina Barbosa, conhecida como Mãe Rosa de Oyá, e sua irmã estavam no local, que fica em Alagoinhas, no Nordeste do estado. Isso porque, além do espaço ser um templo religioso, também é a casa da sacerdotisa.

Mas foi justamente em um momento em que a maioria dos filhos de santo da casa estava longe, que o terreiro sofreu o mais violento ataque de seus 10 anos de história. Por volta das 23h30, um grupo de cerca de 50 pessoas seguiu até a frente do Ilê Asé Oyá L’adê Inan. Gritando frases como ‘Satanás vai morrer’ e ‘Vamos invocar Jesus para fechar a casa de Satanás’, membros do grupo batiam com uma Bíblia na porta do terreiro.

Por cerca de 20 minutos, fizeram uma espécie de “culto” diante da casa de candomblé. Em vez de palavras de paz e tolerância, contudo, vieram ataques diretos à religião de matriz africana.

“Eles fizeram um escândalo, gritando pela rua e chamando atenção do bairro inteiro. Esperaram o terreiro esvaziar, porque no fim de semana todo tinha gente lá, para pegar a pessoa dormindo, desprevenida e sem poder se defender. É uma atitude fria, de racismo religioso, para que a gente tenha medo de cultuar nossos antepassados”, afirmou a yakekerê (mãe pequena) do terreiro, Fernanda Júlia Onisajé, também filha biológica da ialorixá.

Durante todo o período em que as pessoas estiveram lá, a mãe de santo, Mãe Rosa, ficou dentro de casa. Com medo, ela e a irmã preferiram não sair do local até que o grupo não estivesse mais lá. Mesmo assim, um dos filhos de santo da casa, que mora na mesma rua, conseguiu registrar, à distância, alguns instantes da ação do grupo.

No vídeo, a pessoa que gravou diz que um grupo de evangélicos está na frente da casa de Mãe Rosa, fazendo uma oração na rua. Nas imagens, é possível ouvir gritos e ver um grupo de pessoas andando de um lado para o outro.

Igrejas em volta

De acordo com a yakekerê, o terreiro, que fica no bairro de Santa Terezinha, na localidade do Ferro Aço, está rodeado de igrejas evangélicas. No entanto, a convivência sempre foi pacífica. As duas moradoras dos imóveis imediatamente vizinhos ao templo religioso – tanto do lado esquerdo quanto do direito – também são protestantes. Da mesma forma, nunca houve desrespeito.

“As pessoas das igrejas respeitam muito minha mãe, que viu muitas pessoas nascerem e crescerem ali. A gente estranhou porque nunca viu nada nesse sentido, mas tem indícios de que partiu de uma igreja nova que criou uma sede no bairro. É uma igreja ultradireitista e fundamentalista”, explica Fernanda.

Antes mesmo da existência do terreiro ali, Mãe Rosa já morava no bairro. Já era mãe de santo – com 60 anos hoje, vai fazer 30 anos de candomblé em 2020. Por isso, conhece boa parte da comunidade. Uma pessoa que mora na rua, inclusive, já se dispôs a ser testemunha do caso nos órgãos responsáveis.

A testemunha já teria identificado o nome da igreja, do pastor e de alguns dos envolvidos. A yakekerê prefere, porém, não divulgar as identidades até que tudo seja confirmado.

“Nunca sofremos nada nesse formato. Tem aquele ataque cotidiano de ser abordado na rua. Essas coisas acontecem. Mas algo com essa violência, não. Foi tão violento que uma de nossas vizinhas, evangélica, chegou a passar mal”, diz Fernanda.

Fernanda e outros filhos da casa já registraram a ocorrência no Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, da Secretaria de Promoção de Igualdade Racial do Estado (Sepromi), e já comunicaram ao Ministério Público do Estado (MP-BA). Eles também pretendem denunciar o caso à Polícia Civil.

“A gente não vai deixar passar impune. A gente vai se mobilizar, estamos conclamando os irmãos de axé. A gente tem que se mobilizar e se respaldar, porque o ódio é uma ação de guerra”, alerta.

Vídeo

Quem registrou as imagens foi o bailarino Ivan Pina, 19 anos, que é filho de santo da casa e mora na mesma rua do terreiro. Ele conta que, no início, não percebeu o que estava acontecendo. Ouviu o barulho, mas achou que era alguma confusão na rua. Demorou alguns minutos até ir à porta de casa para entender a situação.

Quando finalmente chegou ao portão, viu o grupo de pessoas gritando. “Eles podem falar que foi um culto na rua, mas, um dia antes, no domingo, a gente estava fazendo uma cerimônia para as iabás (orixás femininos). Tinham jogado um agari na rua, que é um elemento para Exu e os evangélicos devem ter visto, porque não é uma rua movimentada”, explica.

Ainda que tenha gravado o vídeo, Ivan não saiu de casa. Assim como a Ialorixá, teve medo que o ataque tomasse proporções ainda maiores. Durante o período em que as pessoas estiveram lá, ele diz ter pensado que o templo religioso seria invadido.

“Conheço Mãe Rosa desde os quatro anos, então tenho um afeto muito grande por ela. Não é a primeira vez que acontece uma agressão a ela, nem a mim. Mas desse tamanho, esse afronte, é assustador. Me senti totalmente invadido, mesmo que eles não tenham entrado na casa”, revela Ivan.
Acompanhamento

Através da assessoria, a Sepromi confirmou que foi acionada para acompanhar o caso através do centro de referência desde as primeiras horas desta terça-feira (28). O órgão orientou os filhos da casa sobre a necessidade de registrar o atentado na delegacia mais próxima para a produção de um boletim de ocorrência.

Além disso, a secretaria informou que acionou também os outros órgãos que compõem a Rede Estadual de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa – Ministério Público do Estado (MP-BA), Defensoria Pública do Estado (DPE) e Tribunal de Justiça do Estado (TJ-BA). O objetivo desse contato é elaborar estratégias para a mediação do conflito. “O Centro Nelson Mandela colocou à disposição o serviço de orientação jurídica e acompanhamento do caso, desde que foi notificado pela comunidade religiosa”, completam, em nota.

Ao CORREIO, a presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia (OAB-BA), Maíra Vida, destacou que acredita ser “evidente” a premeditação e intencionalidade.

“Do que tivemos notícia, em contato direto com uma das filhas da casa, um grupo religioso de identidade evangélica fez um cerco ao templo de culto, que trata-se de propriedade privada na qual funciona o terreiro e a residência da yalorixá, num momento de esvaziamento, que contava com a presença de apenas duas sacerdotisas, idosas, após cerimônias no final de semana que garantiram um intenso trânsito de fiéis. É evidente a premeditação e intencionalidade”, diz.

Segundo a advogada, o crime cometido foi de racismo religioso – não de injúria religiosa. A tipificação penal deve remontar ao artigo 20 da Lei 7.716, que fala sobre o racismo.

“O escárnio incidiu sobre o templo de culto por conta da manifestação de religiosidade que lhe é característica de matriz africana, que possui proteção constitucional como qualquer outra confissão religiosa. Mas, ainda assim, a forma foi acovardada. O desrespeito foi dirigido precipuamente à comunidade religiosa, ao terreiro, utilizando-se como via as suas lideranças e com o atingimento de sua esfera privada”, reforça a presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-BA, Maíra Vida.

Além disso, o grupo religioso pode ser indiciado como organização criminosa. “Houve turbação da ordem social e há uma gama de infrações penais que emergem desse caso e todas apontam para a o crime de racismo religioso”.

A Frente Nacional Makota Valdina emitiu uma nota se solidarizando com o Ilê Asé Oyá L’adê Inan. No texto, a entidade destaca o racismo institucional e a violação do respeito ao livre exercício de culto e da garantia de proteção aos locais de culto. Eles pedem que órgãos públicos competentes tenham atenção para o caso.

“Salientamos que estes e todos os casos de violência contra os nossos terreiros precisam ser combatidos de todas as formas, com medidas de proteção, políticas públicas, ebós coletivos e interpelação judicial para que seja exigido o respeito às tradições de matriz africana”.

A agressão ao terreiro Ilê Asé Oyá L’adê Inan, em Alagoinhas, chamou a atenção também do Ministério Público do Estado (MP-BA). A promotora Andrea Borges contou que casos assim não são comuns na cidade e que vai instaurar um procedimento para apurar.

“Vou aguardar que as vítimas procurem o Ministério Público. Mas, independentemente disso, vamos apurar o que aconteceu. Por enquanto, fomos informados do caso apenas pela imprensa”, disse.

Como denunciar

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) tem uma rede de atendimento contra a intolerância religiosa nos municípios. O contato deve ser feito através dos telefones (71) 3117-7448/7445, do Centro Nelson Mandela.

Também é possível comparecer diretamente no centro, que fica na Avenida Manoel Dias da Silva, nº 2.177, na Pituba. O centro funciona no mesmo prédio da Sepromi, junto à Praça Nossa Senhora da Luz. Além disso, é possível registrar a denúncia na Ouvidoria Geral do Estado, através do número 0800 284 0011.

Outra forma de denunciar ataques é através do aplicativo Mapa do Racismo, lançado em novembro pelo MP-BA. Na prática, depois que o cidadão baixar o app e fizer a denúncia, uma equipe gestora vai encaminhar a demanda para a comarca devida e, em seguida, o MP-BA entrará em contato com a vítima.

Fonte: Correio